Espaço Reservado:

A Analista, Ele e Alguém

 
 
  Ele fazia questão de perguntar a analista, absolutamente tudo. A Analista era uma criatura circunspeta, agia metodicamente e fazia intervenções aparentemente apropriadas. Era o suporte necessário a sua vida, a solidão, ao tédio, as dificuldades familiares, as suas depressões e ao VAZIO enorme que sua vida se tornara após anos e anos de trabalho árduo.

Ele havia tido tantas decepções na vida e as amizades eram tão pouco duradouras que os sentimentos se tornaram um pesadelo, desde as necessidades mais básicas ás mais complexas. Mas a Analista estava lá, firme, duas vezes por semana atendendo, ouvindo, intervindo, cobrando, em espécie é claro!

É uma atitude equilibrada pedir ajuda quando se necessita procurar um profissional que possa dar um suporte, é uma atitude LÚCIDA, mesmo que parta de um LOUCO.

A analista continuava lá, em seu consultório e já tinha tanta intimidade com ele que quase lia seus pensamentos e sentimentos, sabia quais as respostas necessárias e mais do que isso, sabia o que dizer para fazê-lo agir de acordo com o que ela achava melhor, obviamente, ambos, pensavam que partia dele todas as decisões comedidas e calculadas.

Um dia ele encontrou alguém, por acaso encontrou alguém, chegou até a se apegar, a sentir-se amado, obviamente comunicou a Analista, mas esse alguém como todo ser humano tinha problemas, dificuldades a serem superadas. A analista obviamente o fez ver todos esses problemas, o fez ver que ele já tinha problemas demais e que um novo problema o faria muito mal, apesar dele se sentir amado, de ter se apegado.

Esse alguém, claro, jamais foi levado em consideração porque a Analista não podia levar em consideração nada além DELE, aquele a quem dava suporte, aquele a quem conhecia os pensamentos e sentimentos, aquele a quem cobrava inclusive em espécie!

Ele então tomou a atitude mais acertada, afastou-se desse alguém como quem joga fora um objeto, claro que a Analista aprovava era menos um problema na vida dele, e menos um risco à relação terapêutica, tão necessária ao tratamento!

Ele continua sozinho indo duas vezes por semana as sessões, na esperança de encontrar outro alguém, que A Analista aprove.

O que A Analista não sabe ou não levou em consideração, é que há uma razão para tudo e que todos os seres humanos precisam de alguém e que as escolhas devem ser feitas sem intervenções apropriadas, porque, se não se resolve agora, certamente se resolverá um dia, nesta, ou em outra vida, quem sabe? Porque o que é importante, é se se está sendo realmente FELIZ!

No fim da história morrerão todos, A ANALISTA, ELE e Alguém. ELE e ALGUÉM se encontrarão numa vida sem analises, sem superficialidades, sem culpas e cobranças, ELE e ALGUÉM se darão às mãos se reconhecerão imediatamente e seguirão juntos numa estrada que poderia ter se iniciado bem antes, não fossem as intervenções apropriadas e convenientes, não fossem os questionamentos e dependências que não impedirão a MORTE, mas impedirão a FELICIDADE.

Monica Gomes Teixeira Campello de Souza