
Tópicos de Interesse:
Medicina
Baseada em Evidência
| Introdução Definição A chamada Medicina Baseada em Evidência (MBE) é definida como sendo o uso consciencioso, explícito e judicioso da melhor evidência corrente na tomada de decisões a respeito do tratamento de pacientes individuais. Ela consiste no processo de sistematicamente revisar, avaliar e usar os achados das pesquisas clínicas para ajudar na oferta de tratamento clínico ótimo aos pacientes. A sua base filosófica remonta aos céticos da Paris pós-revolucionária, particularmente Bichat e Louis, Magendie. Características Fundamentais A idéia básica da MBE é a de assegurar o maior aumento possível na saúde da população por meio da maximização do uso dos recursos disponíveis, o que se obtém apoiando cada vez mais as decisões sobre o fornecimento e o provimento de serviços de saúde em evidências de efetividade clínica, de custo e de uma avaliação sistemática dos resultados finais na saúde. Assim, cada vez mais busca-se a força da evidência científica na prática clínica e, ao mesmo tempo, a efetividade de custos, no processo de alocação de recursos (análise custo benefício). As informações produzidas desta forma encorajam os agentes envolvidos (pacientes, médicos, hospitais e serviços, e as companhias de planos de saúde) a adotarem práticas que sejam mais efetivas em termos clínicos e de custo.
Naturalmente, destacam-se aqui os métodos quantitativos e os modelos matemáticos enquanto forma privilegiada de se dar sentido aos dados de diversos tipos, produzindo informações e contribuindo para a formação de conhecimento. Alguns Conceitos Básicos A prática da MBE requer a integração da expertise clínica individual com a melhor evidência clínica externa disponível, obtida a partir de pesquisa sistemática. Para que se possa compreender adequadamente o significado desta afirmativa, é preciso definir algumas noções fundamentais de modo claro. Desse modo, tem-se a lista a seguir.
A partir das definições e conceitos acima, tem-se um ponto de partida em relação ao qual se pode identificar e compreender o que a MBE é e não é. Idéias Errôneas Acerca da MBE Como toda e qualquer idéia capaz de introduzir mudanças nos modos tradicionais de se fazer as coisas, a Medicina Baseada em Evidências costuma ser recebida com um ceticismo inicial capaz de levar a erros de interpretação. Contudo, a observação cuidadosa dos seus conceitos fundamentais é suficiente para que se possa evitar esse tipo de deturpação. Alguns dos principais equívocos e sua explanação são apresentados a seguir.
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| Para que se possa
efetivamente compreender o que faz, como funciona e quais
as reais implicações da Medicina Baseada em Evidência,
contudo, é preciso se ter ao menos uma visão geral de
como ela é colocada em prática, o que é apresentado a
seguir Implementando a MBE Apesar da Medicina Baseada
em Evidências não constituir-se num receituário de
práticas médicas específicas, existe nela um conjunto
genérico de procedimentos para que se possa
continuamente levantar novos conhecimentos que venham a
guiar adequadamente as ações a serem implementadas.
Esse verdadeiro "roteiro" é mostrado logo
abaixo. |
| Roteiro Para a Implementação da MBE | ||
1.
Elabore-se a Questão Clínica:
2. Encontre-se a Melhor Evidência:
3. Critique-se a Evidência:
4. Aplique-se a Evidência:
5. Avalie-se o Desempenho:
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É claro que o esquema acima é apenas um esboço inicial das ações a serem adotadas. Em seguida é necessário refinar o problema, particionando-o em perguntas explícitas que possam ser feitas e respondidas e, então, verificar se existe evidência a respeito do assunto. Depois é preciso saber onde se pode encontrar informação que possa dar apoio às decisões. As fontes mais comuns são: experiência pessoal, raciocínio clínico e intuição, cursos e congressos e evidência publicada. É importante notar que é apenas concentrando-se nesta última categoria que as intervenções sem efetividade, perigosas ou dispendiosas podem ser reduzidas. Avaliando a Informação Para a análise da informação, isto é, para que se use a evidência, é necessário procurá-la e encontrá-la, avaliá-la, armazená-la e torná-la de fácil recuperação, de modo a garantir que ela seja permanentemente atualizada. Também é preciso comunicá-la e usá-la eficazmente. Uma evidência pode ser
apresentada de muitas formas, sendo importante entender
as bases nas quais ela é enunciada. Em linhas gerais, o
seu valor pode ser ordenada de acordo com a seguinte
classificação em ordem decrescente de credibilidade: |
| O Ranking das Evidências | ||
| I -
Forte evidência de pelo menos uma revisão sistemática
de múltiplos e bem projetados ensaios randomizados
controlados. II - Forte evidência de pelo menos um ensaio randomizado controlado cuidadosamente projetado e de tamanho adequado. III - Evidência de ensaios bem projetados tais como ensaios não randomizados, estudos de coorte, séries de casos, ou estudos de casos controle casados. IV - Evidência de estudos não experimentais (observacionais) bem projetados de mais de um centro ou grupo de pesquisa. V - Opiniões de autoridades respeitadas, baseadas em evidências clínicas, estudos descritivos (relatos de casos) ou relatórios de comitês de especialistas. |
Algumas vezes os resultados de pesquisas podem contradizer uns aos outros e obscurecer a questão em estudo. Nestes casos é vital proceder-se a uma cuidadosa meta-análise. A Problemática Básica Tradicionalmente, a Medicina baseia-se nas experiências pessoais do médico, na autoridade daqueles com títulos acadêmicos de maior prestígio e no conhecimento de fisiologia e patologia. Em termos práticos, isto significa que a prática profissional do médico é baseada quase que exclusivamente na intuição, na experiência clínica espontânea, e nas chamadas "teorias fisiopatológicas". Trata-se de uma epistemologia tipo "senso-comum", marcadamente teleológico-finalista. Esse estado de coisas tem levado a uma série de inadequações na prática médica. Paralelamente à situação descrita acima, o desenvolvimento da tecnologia tem propiciado toda uma série de novos exames complementares que produzem uma quantidade cada vez maior de dados e informações de vários tipos. São resultados expressos sob a forma de indicadores, gráficos e imagens cuja análise e interpretação eficazes exigem progressivamente mais capacitação em Matemática, Estatística, Metodologia Científica e Informática, ou seja, em áreas onde a formação médica não desenvolve grande compreensão. É importante compreender que, para todos os efeitos, a Medicina está vivendo somente agora a sua passagem do modo de produção baseado no artesanato para o modo de produção baseado em tecnologia, ou seja, a Revolução Industrial. Muitas especialidades médicas são conhecidas em função do nome do aparelho que o médico usa, tais como Ultrassonografia, Ecocardiografia, Radiologia, etc., havendo até quem fale em "métodos gráficos". As propagandas dos serviços médicose laboratórios de análises falam exclusivamente sobre as características e vantagens das máquinas de que dispõem. A MBE tenta alterar esse estado de coisas procurando fazer com que as decisões sobre os cuidados em saúde tenham como referência os resultados de pesquisas científicas centradas no paciente, e não apenas a pesquisa básica. O foco desloca-se, então, para a adoção de métodos quantitativos para a coleta de dados e obtenção de informações no setor de saúde. Isto implica em procedimentos técnicos de projeto de experimentos, condução desses experimentos e, naturalmente, análise estatística. Busca-se também, ainda que de forma não estruturada (e esse é um problema sério!), uma associação entre métodos epidemiológicos e pesquisa clínica do tipo epidemiologia clínica. Este redirecionamento traz como consequência a necessidade de um compromisso de busca contínua e sistematizada das evidências científicas mais relevantes da literatura médica. A análise crítica da literatura terá que se fazer, também, com o uso de métodos quantitativos e ferramentas tecnológicas modernas (meta análises e internet, por exemplo). Conclusão Em resumo pode-se dizer que a MBE tem a ver com a capacidade de se adaptar rapidamente às mudanças. Ela significa não saber exatamente todas as respostas antes de se começar a agir, mas encontrar todas as informações que se necessita à medida em que tal necessidade emerge, aplicando os próprios conhecimentos apropriadamente e consistentemente em novas situações clínicas. Ela significa, pois, a integração da expertise, julgamento e proficiência adquiridos em função da experiência clínica; a aplicação da melhor evidência clínica externa disponível proveniente de pesquisas clínicas centradas no paciente. É um processo de aprendizado auto-dirigido, para toda a vida, que dá apoio às necessidades de informação clínica sobre diagnóstico, prognóstico, terapia e outras questões clínicas e de serviços de saúde. Isto implica numa consulta sistemática, com métodos apropriados, para formular questões, desenvolver estratégias de busca e avaliar artigos. |