Diagnóstico e Casuística do
Carcinoma Broncogênico

Bruno Campello de Souza


  Introdução    
  A Dra. Isabela Pedrosa, do Serviço de Pneumologia do Hospital Oswaldo Cruz de Pernambuco, observou em sua prática clínica a existência de determinadas diferenças entre os portadores de carcinoma broncogênico e os demais pacientes pneumológicos, assim como certas discrepâncias entre os resultados de diversos exames para o diagnóstico daquela doença. Tal constatação a levou a coletar dados de 374 pacientes daquele serviço com o intuito de investigar de forma mais objetiva suas impressões através de um estudo científico apresentado sob a forma de uma monografia.

Como parte necessária do estudo, a Vade Mecum Consultoria analisou os dados coletados encontrando evidências estatísticas para as suspeitas da Dra. Pedrosa e estabelecendo um detalhamento das diferenças constatadas.

Metodologia

Sujeitos:

Ao todo, foram 374 pacientes selecionados ao acaso a partir dos registros do Serviço de Pneumologia do Hospital Oswaldo Cruz, sendo contados 191 homens (51%) e 183 mulheres (49%) com idades entre 3 e 89 anos (média de 53, desvio padrão 18.9). Por se tratar de uma instituição pública, a vasta maioria deles é de renda baixa a muito baixa.

Materiais:

Foram usados todos os materiais de praxe para a realização de biópsias e de exames histológicos.

Procedimento:

Todos os sujeitos receberam um diagnóstico clínico inicial em função do qual seqüências de exames posteriores foram recomendados para fins de confirmação. Cada paciente foi submetido a tantos e quais exames se fizessem necessário até que os médicos responsáveis ficassem satisfeitos quanto à certeza do diagnóstico.

Resultados

A Eficácia do Diagnóstico Clínico:

Uma comparação entre o diagnóstico preliminar, puramente clínico, e o final, obtido após uma adequada bateria de exames, fornece uma boa indicação da eficácia do diagnóstico clínico. É o que mostra a tabela a seguir.

Sensibilidade e Especificidade do Diagnóstico Clínico do Carcinoma Broncogênico
  Diagnóstico Inicial
CB Outro Total
Diagnóstico Final CB 61 8 69
Outro 11 294 305
Total 72 302 374
Falsos Positivos = 3% Falsos Negativos = 15%
Sensibilidade = 85% Especificidade = 97%

OBS: O teste de Chi-Quadrado mostra que os resultados são
estatisticamente significativos para 5%.

O número de falsos negativos é cinco vezes superior ao dos falsos positivos, ou seja, é cinco vezes mais provável haver engano quanto à ausência do que quanto à existência de carcinoma broncogênico. As demais neoplasias são o principal fator de imprecisão no diagnóstico preliminar, estando presentes em 64% dos falsos positivos e em 50% dos falsos negativos (junto com o CB).

Caracterização dos Portadores de Carcinoma Broncogênico:

Do total de 374 pacientes, 69 (18%) receberam o diagnóstico final de carcinoma broncogênico (CB). Comparações entre este grupo e os demais mostram diferenças significativas quanto à idade e o sexo.

Como se pode ver claramente, os portadores de CB apresentam prevalência maior do sexo masculino (70% são homens) quando comparados com os demais pacientes do Serviço de Pneumologia (apenas 47% são homens). De fato, tem-se que 25% dos homens apresenta diagnóstico de CB, contra apenas 11% das mulheres. Em outras palavras, a chance de um paciente do Serviço de Pneumologia do sexo masculino apresentar um carcinoma broncogênico é mais de duas vezes maior do que a probabilidade associada ao sexo feminino.

Com relação à idade, os portadores de CB tem média etária de 62 anos, com desvio padrão em 11.8 e variando individualmente de 32 a 89. Já os demais pacientes tem idade média de apenas 51 anos, com desvio padrão em 19.5 e variando individualmente de 3 a 89. Assim, os paciente com carcinoma broncogênico são, em média, 11 anos mais velhos do que os demais. Na realidade, a incidência de CB entre os que tem 53 anos de idade ou mais é de 27%, enquanto que dentre os que estão abaixo dessa faixa etária o número é de apenas 8%, isto é, os mais velhos tem uma chance três vezes maior do que a dos mais novos de apresentarem a doença.

A Sensibilidade dos Exames:

Tomando-se o percentual dos pacientes com diagnóstico final de carcinoma broncogênico que apresentaram resultados positivos nos diversos exames, ou seja, a partir de uma averiguação da sensibilidade, é possível tirar alguma indicação acerca da sua eficácia relativa. É o que mostra a tabela abaixo.

A Sensibilidade de Diversos Exames Para o Carcinoma Broncogênico
Exame Sensibilidade N
Broncoscopia 93% 42
Broncoscopia + Biópsia 91% 32
Punção de Agulha Fina 76% 17
Broncoscopia + Lavado 30% 10

OBS: Apenas a diferença entre a sensibilidade da "Broncoscopia mais Lavado"
e os demais exames é significativa para 5%. 

Como se pode ver claramente, a "Broncoscopia mais Lavado" mostra-se bastante inferior aos demais exames com relação à sua sensibilidade. O restante não apresentou diferença significativa para 5%, embora seja relevante observar que a diferença entre a "Broncoscopia" e a "Punção de Agulha Fina" é significativa para 7%. 

Conclusões

A partir dos resultados obtidos e das análises realizadas, conclui-se que:

  • O diagnóstico clínico do carcinoma broncogênico, ao menos no Hospital Oswaldo Cruz, é bastante eficaz, com boa sensibilidade e excelente especificidade.
  • A maior idade e o sexo masculino estão associados a uma maior prevalência do CB.
  • Os melhores exames para a detecção do CB, ao menos no contexto do Instituto Oswaldo Cruz, são a "Broncospia" e a "Broncoscopia mais Lavado".
  • A "Broncoscopia mais Lavado" não é um exame muito eficaz, dentro dos moldes pesquisados.
  • Há motivos para se considerar a possibilidade da "Punção por Agulha Fina" ser menos eficaz do que a "Broncoscopia" e do que a "Broncoscopia mais Biópsia", embora a primeira seja nítidamente mais eficaz do que a "Broncoscopia mais Lavado".

Espera-se que os achados supracitados possam ser utilizados na prática clínica e em pesquisas posteriores acerca do assunto.