A Relação Muramidase-NEC
e Um Novo Indicador da Muramidase

Bruno Campello de Souza


  Introdução    
  A Doutora Vera Coutinho, da Universidade Federal de Pernambuco, em sua tese de Doutorado, hipotetisou que ocorrência da enterocolite necrosante (NEC) em neonatos estaria associada à ausência de muramidase no tubo digestivo intestinais dos mesmos. Para verificar a validade da sua suposição, foi realizado um experimento onde se buscou avaliar tanto a ocorrência de NEC quanto à presença de muramidase, sendo os dados resultantes analisados pela Vade Mecum Consultoria.

Como parte necessária do estudo, a Vade Mecum Consultoria desenvolveu um índice colorimétrico capaz de estabelecer uma medida da quantidade da enzima presente em exames histológicos a partir da análise da imagem produzida pelos mesmos.

Metodologia

Sujeitos:  

Ao todo, foram 21 pacientes portugueses e escoceses de ambos os sexos, recém-nascidos, submetidos a exames para detectar a presença de enterocolite necrosante ou de atresia.  

Materiais:  

Foram usados todos os materiais de praxe para a realização de biópsias e de exames histológicos.  

Procedimento:  

Todos os sujeitos foram avaliados clínicamente para determinar a existência de NEC ou de atresia, sendo, em seguida, submetidos a biópsias para a obtenção de material intestinal para os exames histopatológicos. A detecção da muramidase consistiu na aplicação de um corante específico para a enzima, o qual reage à sua presença através da formação de manchas escuras nas criptas das vilosidades da mucosa intestinal.  

Resultados

O diagrama, logo abaixo, mostra o percentual de sujeitos diagnósticados com NEC em função da positividade ou negativadade para a muramidase dos seus exames histológicos.

 Ficou claro o impacto protetor de um resultado positivo para a muramidase, com 100% dos sujeitos negativos e apenas 11% dos positivos apresentando NEC. 

Um Indicador da Quantidade de Muramidase

O procedimento tradicional para a detecção da muramidase no tecido intestinal utiliza um exame histológico ao qual é aplicado um corante vermelho que reage à presença da enzima formando uma mancha avermelhada evidente nas criptas das vilosidades, como mostra a fotografia abaixo.  

Normalmente, a avaliação é feita de modo não-sistemático, ou seja, através de uma estimativa subjetiva realizada por um especialista com base em sinais específicos de cor e localização. Contudo, digitalizando-se uma fotografia originalmente de 14 x 21 cm a 600 dpi e 24 bits, em seguida reduzindo-a, via o software, para 10 x 15 cm a 100 dpi e 24 bits, é possível identificar os atributos da imagem que estejam associados à evidência de muramidase.

Usando o software Adobe Photoshop v4.01, é possível identificar determinados atributos dos componentes vermelho (red), verde (green) e azul (blue) de uma imagem digitalizada. Mais especificamente, pode-se identificar a média de intensidade dos canais de cada cor nos vários pixels dento de uma escala de 0 a 255. Naturalmente, cada média está agregando informação acerca da distribuição das intensidades luminosas para cada cor. Assim, uma média dos valores dos canais vermelho, verde e azul, doravante denominada ICM (Índice Colorimétrico de Muramidase), tende a juntar toda a informação num único indicador.  

A real eficácia do ICM como indicador da quantidade da muramidase, assim como a direção da relação (direta ou inversa), pode ser inferida avaliando-se o percentual de exames positivos para a enzima  para cada faixa de valores do índice considerado. É o que mostra o Diagrama 2.  Assim, fica cientificamente validado o uso do indicador como medida objetiva da quantidade de muramidase. É preciso deixar claro, porém, que o índice em questão só permite comparações entre imagens das mesmas dimensões, mesma ampliação, idêntico grau de iluminação, mesmo tipo de filme e mesmo corante.  

O Impacto da Quantidade de Muramidase

Para verificar o impacto da muramidase sobre a ocorrência de NEC, é preciso verificar a variação no percentual de sujeitos com NEC em função do patamar de ICM.   

Os resultados mostram claramente que quanto menor for a quantidade de muramidase maior é o percentual de pacientes com NEC, havendo uma relação bastante linear entre as duas coisas. Extrapolando os resultados, é possivel supor que a ocorrência de NEC deve reduzir-se a zero numa faixa de ICM de 200-210.

Conclusões

A partir dos resultados obtidos e das análises realizadas, conclui-se que:  

  • A falta de muramidase está associada à ocorrência de NEC.
  • É possível quantificar a muramidase a partir do exame histológico.
  • A relação muramidase-NEC é dose-dependente.
  • A relação muramidase-NEC é linear.

Espera-se que estes achados possam ser utilizados em pesquisas posteriores acerca do assunto.