SISTEMÁTICA DE IDENTIFICAÇÃO

 
 
  As Múltiplas Dimensões da Identificação

De acordo com as diretrizes do MEC/CENESP (1986), a identificação do superdotado para efeito de atendimento educacional deverá ser feita o mais cedo possível, e os critérios válidos para isso são os seguintes:

  • Julgamento e avaliação das habilidades por professores, especialistas e supervisores.
  • Resultados consistentemente superiores em testes devidamente adaptados e padronizados.
  • Demonstração de habilidades superiores ligadas a expressivo interesse, motivação e envolvimento pessoal em determinadas àreas.
  • Rendimento escolar e progresso acadêmico mais rápido do que aqueles da mesma idade.

No contexto de um planejamento pedagógico ou de uma orientação educacional, a identificação de um superdotado requer a realização de uma seqüência de procedimentos para que se assegure um processo simultaneamente eficaz (capaz de realmente detectar os superdotados existentes) e eficiente (capaz de realizar a detecção de modo operacionalmente viável e econômivo). Para tanto, há a necessidade de considerar tanto o rendimento escolar e o desempenho em testes específicos quanto as avaliações mais subjetivas da parte de pais, professores e dos próprios alunos.

A Opinião de 370 Educadores Ingleses

Ogilvie (1973) enviou a 370 educadores (professores, pedagogos e psicólogos de 19 escolas primárias inglesas) um questionário no qual, entre outras coisas, pede a eles que assinalem, dentre diversas alternativas, quais delas constituem métodos confiáveis de identificação de superdotados. Os resultados são apresentados a seguir.

  A Confiabilidade de Diversos Indícios de Superdotação Segundo 370 Educadores Ingleses (Olgivie, 1973)  
  Indício de Superdotação Fração dos Educadores
Que Assinalou
 
  Grande Curiosidade 65%  
  Amplo Vocabulário 65%  
  Redação Criativa 56%  
  Escores Elevados em Testes de Inteligência (QI) 53%  
  Demonstração de Grande Iniciativa 48%  
  Leitura Veloz 48%  
  Comportamento Divergente (Inusitado, Original, Mas Não Delinqüente) 45%  
  Escores Elevados em Testes de Desempenho Escolar 38%  
  Perseverança Extraordinária 36%  
  Exasperação em Face a Restrições Impostas 28%  
  Escores Elevados em Testes de Criatividade 21%  
  Sonhar Acordado 18%  
  Características Físicas Excepcionais 9%  
  Memorização de Versos, Poemas, Etc. 8%  
  Incapacidade de Compreender a Agressão dos Outros 6%  
  Rejeição do Trabalho Escolar 6%  
  Extrema Impopularidade 5%  
  Comportamento Delinqüente 1%  
  OBS: Dos 370 educadores, cerca de 21% consideraram que a lista fornecida no questionário que receberam estava incompleta. Dos acréscimos sugeridos, os mais frequentes foram:

a) Seleção e discriminação
b) Percepção de analogias
c) Criação de imagens e percepção de relações
d) Entusiasmo generalizado e cooperação
e) Comportamento "errante" devido à rápida assimilação de fatos
f) Desejo de superar
g) Energia excepcional
 

É interessante observar a grande heterogeneidade de opiniões, com apenas quatro dos dezoito indícios sendo assinalados por mais da metade dos entrevistados.

A Ênfase no Professor

Depois do próprio aluno, o professor é o principal agente pedagógico no contexto escolar. Assim sendo, autores como Gowan (1971) sugerem que a identificação deva iniciar-se no colégio a partir do professor, devendo ser pedido a este último que indique os alunos que mais provavelmente apresentam talento excepcional.

  Perfil dos Alunos a Serem Apontados Pelo Professor Segundo Gowan (1971)  
 
  • O melhor aluno.
  • Aquele com o maior vocabulário.
  • O aluno mais criativo e original.
  • O aluno com maior capacidade de liderança.
  • O aluno com o pensamento crítico mais desenvolvido.
  • O aluno com maior motivação para participar e aprender.
  • O aluno que as demais crianças gostam mais.
  • O aluno com maior interesse na área de ciências.
  • O aluno que está mais avançado na escola para a sua idade.
 

A idéia básica é a de que os professores podem servir para aumentar a eficiência da identificação através da seleção preliminar do grupo que posteriormente será avaliado mais objetiva e detalhadamente através dos demais métodos. O problema com esta estratégia é que ela assegura a eficiência, porém, há dúvidas quanto à eficácia das avaliações dos professores.

Jacobs (1971), citado em Coburn (1983), executou um experimento interessante onde pediu a diversos professores que procurassem identificar os 19 alunos do colégio que tinham QIs acima de 135. Os alunos em questão assistiam aula com os alunos normais desses professores, e os próprios professores já lecionavam em suas turmas há seis meses. Nessa situação, nenhum dos alunos foi identificado. Entretanto, 16 dos 19 alunos foram identificados quando se pediu aos pais dos alunos para efetuar a identificação. Uma das explicações levantadas por Coburn foi o fato de que geralmente os professores tem QIs inferiores aos dos alunos superdotados os quais eles buscam identificar. Segundo ela, o treinamento pode vir a melhorar a capacidade dos professores de reconhecer alunos superdotados, mas não muito. A recomendação do Council for Exceptional Children é de que sejam utilizados vários critérios ao invés de apenas um. Um desses critérios diversos seria que a nomeação para os programas especiais fossem feitas pelos próprios alunos, pois diversos estudos mostram que eles são os mais hábeis em identificar os superdotados e os talentosos.

Coburn (1983), chama a atenção para um estudo feito numa comunidade norte-americana onde se mostra a ineficácia de professores em identificar superdotados. Neste estudo, foram dados a diversos professores as informações geralmente exigidas para a admissão em programas de educação de superdotados (testes de QI, recomendações de professores, informações sócio-culturais acerca do lar de origem, desempenho acadêmico e interesses extra-curriculares) referentes a diversas pessoas reais, algumas das quais destacaram-se na idade adulta em diversas áreas. Os resultados mostraram que, embora pessoas como Abraham Lincoln, Isadora Duncan e o famosos senador americano Bill Bradley geralmente fossem identificados e "escolhidos para participar do programa", indivíduos do porte de Albert Einstein (que só aprendeu a ler aos sete anos de idade), Thomas Alva Edison (cujos professores se deseperavam com a sua "estupidez") e Eleanor Roosevelt (que era uma criança retraída e problemática) foram sistemáticamente rejeitados.

Procedimentos Multidimensionais

Uma sistemática de identificação de superdotados envolve uma seqüência de procedimentos que inclui etapas bem definidas, cada uma referente a uma forma diferente de avaliação. Assim, todos os métodos e agentes tem sua importância dentro de um conjunto ordenado de passos.

Renzulli e Smith (1971), propõem cinco etapas bem definidas para a identificação do aluno intelectualmente ou acadêmicamente superdotado em meio a uma grande massa estudantil.

  Uma Boa Sistemática de Identificação de Superdotados Segundo Gowan (1971)  
  i) Administração de testes grupais de habilidade em todos os estudantes das séries das quais se selecionarão os participantes para um determinado programa.

ii) Administração de testes individuais de inteligência naqueles estudantes que tiveram um desempenho significativamente superior nos testes grupais.

iii) Solicitação aos professores da presente série e das séries anteriores para avaliar diferentes aspectos relativos ao desempenho e carcaterísticas dos alunos selecionados.

iv) Solicitação aos pais para avaliar diferentes aspectos do comportamento e características do aluno.

v) Obtenção de informações baseadas em auto-avaliações do aluno.
 

O princípio fundamental aqui é o de aplicar técnicas mais coletivas e massificadas como formas preliminares de avaliação para somente depois chegar a procedimentos mais individuais.

Conclusões

A identificação dos indivíduos intelectualmente superdotados dentre as demais pessoas é uma tarefa bastante complexa tendo em vista o fato de que se trata de uma atividade envolvendo questões polêmicas ainda não resolvidas, tais como:

  • A controvérsia sobre a definição de inteligência e de criatividade;
  • O inevitável viés de qualquer avaliação subjetiva ou objetiva;
  • As limitações dos atuais testes de inteligência e criatividade;
  • O pouco conhecimento existente acerca da natureza e das causas da superdotação.

Assim sendo, é preciso, ao menos por enquanto, encarar o fato de que qualquer tentativa de identificação de indivíduos talentosos estará necessáriamente repleta de erros e falhas bastante significativos. Isso não exime os educadores e a sociedade como um todo da tarefa de avaliação, porém, implica em diversas

Tendo em vista essa inescapável realidade, a estratégia mais racional para se executar a tarefa de identificação de superdotados com a menor probabilidade de erro seria o de se adotar um critério multidimensional englobando testes mentais, indícios comportamentais, rendimento escolar e avaliações subjetivas por parte de orientadores educacionais, professores e alunos. Com tal procedimento, haveria a possibilidade dos erros cometidos por um critério ou outro serem compensados pelos acertos na maioria dos critérios restantes, ou então de ocorrerem múltiplos erros que se anulem mútuamente.

No que concerne à operacionalidade, é preciso que se adote sistemáticas que designem os procedimentos mais rápidos e menos onerosos como critérios iniciais de seleção, de modo a reduzir o número de indivíduos aos quais se aplicará as avaliações mais caras e demoradas.