ESTUDO E RENDIMENTO

 
 
  A Importância de Observar as Diferenças

Faz parte do senso comum em educação o conhecimento de que o estudo individual fora da sala de aula é importante para o rendimento escolar, havendo, neste sentido, quantidades insuficientes, adequadas e exageradas de estudo. Considerando-se as peculiaridades intelectuais dos superdotados, é importante observar quais são as eventuais diferenças entre os alunos normais e talentosos quanto à relação estudo-desempenho, o que é feito a seguir através de comparações entre os estudantes de maior ou menor habilidade de uma escola recifense de classe média a alta (total de 4.479 alunos pesquisados).

Rendimento e Quantidade de Estudo

É relativamente óbvio que os superdotados tendem a apresentar maior nível de rendimento escolar em comparação com os seus colegas menos talentosos, conforme já foi apresentado em outra parte deste site. É importante, contudo, observar se tal superioridade se dá ou não às custas de maior dedicação ao estudo, sendo este o objetivo do gráfico abaixo.

A análise estatística revela que, apesar do melhor rendimento escolar dos mais talentosos tanto do 1° quanto do 2° Graus, não há diferença significativa entre normais e superdotados quanto ao tempo semanal dedicado ao estudo. Conclui-se, portanto, que a aprendizagem dos superdotados apresentam maior eficiência do que a dos seus colegas normais.

O diagrama abaixo mostra de forma gráfica a relação entre a quantidade de horas por semana dedicada aos estudos e a média global para alunos normais e superdotados.

A Correlação (r de Pearson) Entre a Quantidade Semanal de Estudo (Horas por Semana) e a Média Global (Escore Padronizado).
  Superdotados Normais
1° Grau Maior -0.30* 0.03
2° Grau 0.20* 0.05
* Correlação estatisticamente significativa para 5%.

No universo do 1o Grau Maior, parece que os alunos normais não apresentam correlação significativa entre a quantidade semanal de estudo e o rendimento escolar, enquanto que, para os alunos superdotados, a correlação existe, mas é negativa. Em outras palavras, parece que, na esfera da 5a à 8a Séries do 1o Grau, a maior quantidade de estudo não está relacionada com desempenho dos alunos normais, porém, mostra-se relacionada a um rendimento mais fraco para os superdotados.

No contexto do 2o Grau, parece que, como aconteceu no 1o Grau Maior, os alunos normais não apresentam correlação significativa entre a quantidade semanal de estudo e o rendimento escolar. Os superdotados, por outro lado, apresentam, neste caso, uma correlação positiva significativa.

Os alunos superdotados apresentam claros indícios de uma superioridade em relação aos normais quanto à eficiência dos seus processos de aprendizagem. Entre os estudantes do 1o Grau Maior, essa discrepância parece estar associada à necessidade de estudar o mínimo possível sob pena de queda no desempenho (superdotados) versus uma indiferença ao esforço do estudo (normais). No caso do 2o Grau, as evidências sugerem que cada hora de estudo de um aluno superdotado equivale a cerca de 4.2 horas de estudo de um aluno normal, como se pode perceber pela razão entre as correlações (o 0.21 dos superdotados dividido pelo 0.05 dos normais é igual a 4.2).

Estratégia de Estudo

Além da pura quantidade, é importante considerar também a estratégia de estudo adotada por um aluno. Existem diversas possibilidades quanto a isso, porém todas elas podem ser classificadas numa das categorias a seguir:

  • Nenhuma: Simplesmente não estudar;

  • Leitura: Ler e reler as matérias nos livros e material didático;

  • Anotações: Ler e "passar à limpo" notas de aula;

  • Testes: Resolver problemas e exercícios;

  • Todas: Utilizar as diversas estratégias diferentes mais ou menos por igual;

  • Outras: Estratégias diferente das listadas acima.

O diagrama a seguir compara alunos normais e superdotados quanto ao principal tipo de estratégia de estudo que eles adotam.

Estatisticamente falando, a única diferença significativa é a de que os superdotados são mais propensos do que os normais a adotarem uma estratégia de estudo mais abrangente ("Todas"), estratégia esta que outras pesquisas tem demonstrado ser superior às demais. Há ainda uma ligeira tendência no sentido dos superdotados serem menos propensos a adotarem a estratégia baseada na leitura ("Leitura").

Escolha de Ambiente de Estudo

É possível se caracterizar os estudantes não apenas pelo tempo que dedicam ao estudo e pela estratégia de aprendizagem que adotam, mas também por sua preferência quanto ao ambiente onde decidem estudar. Usando um critério simples, é relativamente fácil identificar quatro tipos básicos de ambientes:

  • Silêncio: O tipo mais quieto e silencioso possível;

  • TV/Música: Aquele com aparelho de música ou de televisão ligado;

  • Grupo: Um local de estudo coletivo;

  • Outros: Um tipo que não os citados acima.

Nesse sentido, o diagrama abaixo mostra a comparação entre alunos normais e superdotados quanto à sua preferência por tipo de ambiente.

Estatisticamente falando, os superdotados mostram-se menos propensos a estudarem em silêncio e mais propensos a estudarem com música ou televisão, embora a tendência geral de ambos os tipos de alunos seja a de uma grande predominância da preferência por um ambiente silencioso.

Conclusões

Quantidade de Estudo

Os alunos superdotados apresentam claros indícios de uma superioridade em relação aos normais quanto à eficiência dos seus processos de aprendizagem, sendo tal diferença mais visível no 1° Grau do que no 2° Grau. Entre os mais jovens, essa discrepância parece estar associada à necessidade de estudar o mínimo possível (mas não chegando a ficar completamente sem estudar). No caso dos mais velhos, normais e superdotados precisam ambos de quantidades semelhantes de estudo (cerca de 15 a 21 horas semanais, ou 2-3 horas por dia), porém os últimos apresentam um desempenho melhor.

Estratégia de Estudo

Os estudantes superdotados parecem se diferenciar dos normais por serem mais propensos a adotarem uma estratégia de estudo mais holística, ou seja, que engloba uma mistura de leitura, testes, anotações e outras abordagens. É interessante considerar também que a estratégia predileta da maior parte dos normais é a resolução de exercícios, enquanto que a dos superdotados é a combinação de estratégias, esta última sendo mais eficaz segundo análises realizadas com a totalidade dos alunos.

Ambiente de Estudo

Os superdotados parecem mais propensos a preferir um ambiente de estudo repleto de estimulação do que os alunos normais, apesar de ambos apresentarem a predominância da escolha por um ambiente silencioso. É possível que se trate de um reflexo de uma preferência pela complexidade.

Comentários Finais

Os alunos superdotados apresentam diferenças quantitativas e qualitativas em relação aos normais quanto ao estudo. No primeiro aspecto, parece haver uma eficiência maior na aprendizagem escolar. No segundo, existem peculiaridades quanto às estratégias adotadas e os ambientes de estudo escolhidos. São discrepâncias mais do que significativas que certamente merecem uma atenção especial devido às suas implicações educacionais.