OS PROBLEMAS ESCOLARES

 
 
  Um Estranho no Ninho

A escola é a área da vida onde o superdotado pode apresentar o melhor ajuste ou o pior desajuste. Tanto sua capacidade superior pode ajudar-lhe nos estudos e contribuir para um desempenho excepcionalmente bom, como a mesma capacidade pode levar ao tédio, aborrecimento ou rebeldia capazes de provocar desempenho insatisfatório. Além disso, dificuldades tendem a surgir devido ao fato do superdotado ser um indivíduo excepcionalmente inteligente mergulhado num mundo de pessoas com intelecto mediano; fato este que pode gerar uma série de dificuldades de adaptação.

Desperdício de Tempo

Segundo Hollingworth (1952), citado em Novaes (1986), uma criança de QI 140 aproveita apenas 50% de uma aula comum, sendo o resto, para ela, apenas a tediosa repetição do óbvio; e uma criança com um QI 170 práticamente nada aproveita das aulas normais.

  Percentual do Tempo de Aula Normal que é Desperdiçado Para Alunos de Diversos Níveis de QI, Extrapolando a Partir dos Dados de Hollingworth (1926).  
  Valor de QI Fração Desperdiçada Tempo de Uma
Aula de 50 Minutos
 
  100 0% 0 min  
  110 1% 0.5 min  
  120 6% 3 min  
  130 20% 10 min  
  140 50% 25 min  
  150 80% 40 min  
  160 94% 47 min  
  170 99% 49.5 min  

Considerando-se um superdotado como tendo um QI de 126 ou mais, tem-se que, numa aula típica, este tipo de aluno tem cerca de 7 minutos ou mais de tempo ocioso que pode levar a distrações que o desinteressem por completo.

Hostilidade dos Colegas

Hurlock (1964), citado em Novaes (1979), ressalta que uma criança superdotada é frequentemente encarada como uma ameaça pelos companheiros, pois, ela pode fazer com que os padrões de trabalho da classe passem a ser mais rigorosos e o professor passe a esperar mais de seus alunos. Além disso, as crianças de QI médio não se sentem confortáveis quando junto a uma criança muito "inteligente", porque parecem "estúpidas" quando comparadas com essa última.

Independência Rebelde

Drews (1961) analisou o comportamento de estudantes divididos em três categorias: líderes sociais, conformistas estudiosos e intelectuais criativos. Ela observou que os alunos criativos não apresentam preocupação com suas notas. Segundo ela, enquanto os outros estudantes se preparavam para as provas, os intelectuais criativos poderiam estar lendo um texto científico universitário, um livro de filosofia ou mesmo revistas de ficção científica, ou então engajando em atividades que não tivessem qualquer influência no seu rendimento escolar. Como resultado, eles obtiveram as piores notas, mas, graças à sua leitura ampla, variada e automotivada, seu desempenho em testes de conhecimento acadêmico foi melhor do que o dos estudiosos e os líderes sociais.

Stephens (1966), citado em Novaes (1979), afirma que a criança criativa rebela-se perante a abordagem rígida na qual se diz a ela o que ela deve aprender e o que ela deve considerar como verdadeiro.

Professores

Pickard (1976), também citado em Novaes (1979), afirma que professor, em geral, aprecia na criança três características: habilidade acadêmica, alta motivação e conformismo social. De uma forma ou outra, essa criança agrada a pais e professores, seu trabalho será apreciado por todos e na escola terá maior capacidade de tolerância que as demais. Assim, é de se supor que as crianças que fogem a tais moldes (como é o caso da esmagadora maioria dos superdotados) tornem-se insatisfeitas e frustradas e desapontem pais e professores.

Segundo Pfromm Netto (1977), parece ser mais ou menos disseminada a idéia segundo a qual, por uma espécie de milagre, o superdotado em alguma aptidão ou talento encontrará meios de desenvolver ao máximo suas potencialidades mesmo submetido aos mesmos procedimentos, esquemas, rítmos de aprendizagem e ensino e a seus companheiros menos dotados. Não é raro que a criança superdotada seja até hostilizada, direta ou indiretamente, por professores que constatam que ela já sabe tudo quanto lhe pretendem ensinar ou que domina, em poucos dias, o que os companheiros de classe levam semanas ou meses. Em outras ocasiões, supõe-se que "ela sabe mais, aprende demais, então pode-se deixá-la entregue à sua própria sorte". Como consequência, o superdotado muitas vezes acomoda-se, já que os desafios propostos pela escola estão muito abaixo da sua capacidade, produzindo muito menos do que é capaz simplesmente por estar desestimulado. Em outras palavras, seu desenvolvimento é bloqueado e, caso não conte com pais que o estimulem e pessoas que o persuadam a, por si só, empenhar-se mais a fundo, fora da escola, no mundo dos conhecimentos e das práticas correspondentes à sua dotação, o superdotado procurará realizar rápidamente os deveres escolares e desperdiçar a quase totalidade do seu tempo em simples recreação inconseqüente.

Ao que foi dito por Pfromm, Novaes (1979) acrescenta que é comum haver falta de motivação para a aprendizagem escolar devido à existência de muitos outros interesses, e também lista uma série de atitudes de professores que podem prejudicar ao desenvolvimento do superdotado.

  Atitudes Freqüentes de Professores de Superdotados Que Prejudicam o Seu Desenvolvimento Segundo Novaes (1979)  
 
  • Comentários como "tal aluno deve tirar boas notas porque é inteligente" e outros do gênero fazem com que o superdotado abdique e desista de seus talentos e aptidões, uma vez que, por tê-los, tem mais preocupações e obrigações do que os outros colegas.
  • Os professores, por constatarem que tal aluno é mais inteligente ou talentoso do que os seus colegas de classe, freqüentemente, passam a exibí-lo ou a protegê-lo, distinguindo-o dos demais e prejudicando suas relações com os colegas, os quais passam a rejeitá-lo.
  • Por vezes, o professor se identifica com o superdotado e projeta nele suas aspirações e desejos, sendo a imagem daquele que gostaria de ter sido, do filho idealizado ou do indivíduo superior. Entretanto, pode também não aceitá-lo, desenvolvendo atitudes de antagonismo e oposição permanentes.
  • Professores que tiveram alunos brilhantes geralmente tem prazer em contar, mais tarde, sua experiência; embora no ensino tenham tido dúvidas se tais crianças eram realmente superdotadas, ou problemáticas, diferentes, estranhas.
  • Muito raramente o professor é tão talentoso como seu aluno em sua área específica, e não tem tanta imaginação nem criatividade quanto ele.
  • O aluno superdotado é curioso, inquisidor, instável e, por vezes, irritado e agressivo, exigindo muito da pessoa do professor. Nem sempre ele (o professor) está psicológicamente preparado para enfrentá-lo e, portanto, sente-se inseguro, inferiorizado e perseguido, porquanto aquele é o aluno que sabe mais, que faz perguntas difíceis e que abala seu status de saber e de autoridade.
  • Muitos professores competem com seus alunos superdotados e não admitem que estes últimos saibam mais do que eles ou que possam ter idéias mais criativas ou originais.
 

Em meados de 1970, May W. Seagoe, citada em Novaes (1979), elaborou uma lista bastante completa de traços típicos dos superdotados e dos possíveis problemas escolares resultantes.

  Características dos Superdotados e os Problemas Educacionais Concomitantes Segundo Seagoe (1976)  
  Característica: Poder agudo de observação, pronta receptividade, senso do significativo, capacidade para estabelecer o diferente.

Problemas Resultantes: Possibilidade de rejeição grupal, oposição ao meio, defesa do própio sistema de valores, intolerância.

 
  Característica: Poder de abstração, de associação e de síntese, interesse pela aprendizagem indutiva e resolução de problemas, prazer na atividade intelectual.

Problemas Resultantes: Resistência ocasional à imposição de tarefas, omissão de detalhes, não aceitação de atividades de rotina.

 
  Característica: Interesse nas relações causa-e-efeito, habilidade para perceber relações, interesse na aplicação de conceitos.

Problemas Resultantes: Dificuldade para aceitar o ilógico, o superficial e conhecimentos mal estruturados e pouco definidos.
 
  Característica: Gosto pela estrutura e pela ordem, pela consistência, seja de valores ou números.

Problemas Resultantes: Invenção dos próprios sistemas, por vezes, em conflito com os pré-estabelecidos na escola.
 
  Característica: Capacidade de retenção, de reorganização do conhecimento.

Problemas Resultantes: Desinteresse pela rotina, necessidade de precoce domínio das habilidades fundamentais.
 
  Característica: Habilidade verbal, amplo vocabulário, facilidade de expressão, interesse pela leitura, extensão da informação às diversas áreas do conhecimento.

Problemas Resultantes: Necessidade precoce de especialização no vocabulário da leitura, resistência às imposições dos pais e professores, fuga no verbalismo.
 
  Característica: Atitude de indagação, curiosidade intelectual, espírito inquisidor, motivação.

Problemas Resultantes: Falta de estimulação familiar e escolar apropriada, desestímulo, indiferença.
 
  Característica: Espírito crítico, ceticismo, avaliação e autocrítica.

Problemas Resultantes: Atitude crítica em relação aos outros, desencorajamento, exigência interna excessiva.
 
  Característica: Criatividade e capacidade inventiva, inclinação para novas maneiras de ver as coisas, interesse pela livre expressão.

Problemas Resultantes: Rejeição do conhecido, necessidade de inventar constantemente.
 
  Característica: Poder de concentração e atenção.

Problemas Resultantes: Resistência à interrupção quando concentrado nas atividades.
 
  Característica: Comportamento persistente e dirigido para metas.

Problemas Resultantes: Obstinação, certo desligamento do desnecessário e secundário.
 
  Característica: Sensibilidade, intuição, empatia pelos outros, necessidade de suporte emocional.

Problemas Resultantes: Necessidade de sucesso e reconhecimento, sensibilidade à crítica, vulnerabilidade à rejeição dos colegas.
 
  Característica: Energia, vivacidade, agilidade, períodos de intenso e voluntário esforço, precedentes aos da invenção.

Problemas Resultantes: Frustração com a inatividade e ausência de progresso, impaciência.
 
  Característica: Independência no trabalho e no estudo, preferência pelo trabalho individualizado, necessidade de liberdade de movimento e ação, necessidade de isolamento.

Problemas Resultantes: Não-conformismo com as pressões dos pais e grupos de colegas, problemas de rejeição e de antagonismo, quando pressionado.
 
  Característica: Versatilidade e virtuosidade, diversidade de interesses e habilidades, muitos passatempos, competência em diferentes aspectos como música ou desenho e assim por diante.

Problemas Resultantes: Falta de homogeneidade no trabalho de grupo, necessidade de individualização e de ajuda para explorar e desenvolver interesses, como também de adquirir competências básicas.
 

Conclusões

Ao que tudo indica, os alunos superdotados são diferentes dos demais em diversos aspectos. Eles aprendem com maior facilidade e rapidez, sentem uma necessidade quase compulsiva de fazer as coisas à sua própria maneira, são extremamente exigentes com os seus educadores, tem várias áreas de interesse intelectual, muitas vezes são acadêmicamente superiores a colegas e professores, e são vistos como diferentes pelos demais alunos. Sendo as suas necessidades e características psicológicas relevantemente diferentes das dos alunos em geral, estes alunos precisam de um atendimento educacional também diferenciado, ou seja, preparado para dar-lhes o tratamento adequado.