
PAIS, ESCOLAS E SUPERDOTADOS
| A Perspectiva de
Pais e Escolas Quando se pondera acerca da educação dos superdotados, tão ou mais importante do que observar como estes se comportam na escola é considerar também a atitude dos pais e da escola perante os alunos de altas habilidades. Para este fim, foram levantadas, na Região Metropolitana do Recife, as opiniões de 1.386 pais de crianças e adolescentes em idade escolar que estudam em colégios de classe média a alta (respostas dadas em relação ao filho mais velho, de qualquer sexo, ainda matriculado entre a 5a série do ensino fundamental e a 3a série do ensino médio). A Avaliação da Habilidade Mental dos Filhos Embora não sejam formalmente peritos em Educação ou Psicologia, esperar-se-ia dos pais alguma capacidade de avaliar os níveis de habilidade dos filhos. O gráfico abaixo mostra como se distribuiu a classificação que os pais deram ao seu filho mais velho ainda em idade escolar.
Os resultados apontam que, na opinião dos próprios pais, a vasta maioria dos alunos de classe média a alta podem ser considerados como "Normais", havendo uma minoria que se distribui igualmente entre "Infradotados" e "Superdotados". Tais achados apresentam uma certa discrepância com a defasagem entre idade e série escolar, como mostra o gráfico a seguir.
Menos da metade dos alunos sobre os quais os pais responderam à pesquisa estavam na série correspondente à sua idade. Da maioria restante, há um predomínio dos atrasados em relação aos adiantados. Salienta-se, contudo, o fato de que a fração de alunos adiantados equipara-se ao percentual previsto para os superdotados em QI, embora não se possa dizer que absolutamente todos os adiantados tenham QI elevado e vice-versa, e que supera a fração de superdotados estimada pelos pais. Programas de Atendimento a Superdotados Considerando que, segundo os pais entrevistados, cerca de 8% dos alunos são tidos como superdotados e mais de 20% deles estão adiantados em relação à série escolar, seria de se esperar que a maioria das escolas tivesse um programa ou estratégia formal para lidar com os superdotados. Esse não é o caso, porém, como se pode ver a seguir.
Menos de metade dos entrevistados declarou haver na escola dos seus filhos um programa voltado para lidar com superdotados e, daqueles que deram uma resposta positiva, a grande maioria refere à premiação dos alunos com elevado desempenho. Apenas 5% disseram que o colégio oferece aulas especiais e apenas 2% que a escola oferece atendimento especial a alunos cujo talento foi definido independentemente do desempenho escolar. Satisfação Com as Escolas Segundo a avaliação dos pais, numa escala de 1 a 5 ("Péssima"=1; "Ruim"=2; "Mais ou Menos"=3; "Boa"=4 e "Ótima"=5):
Assim, pode-se dizer que o nível global de satisfação dos pais para com a escola dos seus filhos é elevado, embora a satisfação com o atendimento individual e psicológico esteja apenas um pouco acima do razoável. Determinantes da Qualidade Para o estabelecimento de um ranking dos fatores considerados como importantes para a determinação da qualidade de uma escola, foi utilizada uma escala onde sete itens foram ordenados recebendo um valor variando de 1 (menos importante) a 7 (mais importante). Os resultados médios para as avaliações dadas a cada um dos itens pelos 1.386 pais é apresentado no gráfico abaixo.
Estatisticamente falando, o item considerado como mais importante foi a qualidade dos professores, com a filosofia pedagógica ficando em segundo lugar. Infraestrutura, instalações e atendimento individualizado ficaram tecnicamente empatados em terceiro lugar. O desempenho no vestibular ficou em quarto lugar e a atenção aos superdotados ficou em quinto e último lugar. Uso de Testes de Inteligência Apenas 28% dos entrevistados afirmaram que seus filhos foram algum dia submetidos a um teste de inteligência pela sua escola. É importante, contudo, observar como esse índice varia conforme características dos alunos e das suas escolas. Nesse sentido:
Conclusões Falha na Identificação de Superdotados De um modo geral, avaliação que os pais fazem do nível de habilidade do próprio filho mostra-se bastante conservadora, chegando ao ponto de subestimar o índice de superdotados esperado para a classe social considerada (ao redor dos 20% de superdotados em QI). Trata-se de uma percepção que subestima até mesmo o fato de que 22% dos estudantes em questão encontram-se numa série adiantada para a sua idade. Falta de Atendimento Tipicamente, os pais parecem considerar a atenção especial aos superdotados como o fator menos importante para a qualidade de uma escola, perdendo para todos os seis outros fatores considerados. A disponibilidade de programas com aulas especiais voltadas para os alunos de elevado desempenho ou habilidade soma apenas 7%, o que se aproxima bastante dos 8% de superdotados percebidos pelos pais (e fica abaixo das estimativas da prevalência de superdotados para a classe média a alta e do percentual constatado de alunos adiantados em relação à sua idade). O conjunto dos resultados acima sugere que a disponibilidade de programas de atendimento a superdotados na escola segue de perto a percepção e a preferência dos pais, ou seja, que a oferta acompanha de perto a demanda. Isso explicaria também o elevado nível de satisfação dos pais com as escolas dos seus filhos apesar da deficiência na atenção aos alunos de altas habilidades. Ausência de Testes Segundo os pais entrevistados, os testes de inteligência são muito pouco utilizados na Região Metropolitana do Recife como um todo (28%). Isso ocorre mesmo entre aqueles onde percepção é a de que o aluno apresenta habilidade superior. O uso de testes é um pouco mais elevado apenas no caso de atraso escolar (31%) e entre as escolas que procuram lidar com os superdotados de modo mais específico (39%). Em qualquer circunstância, porém, o uso de testes fica sempre significativamente abaixo dos 50%. Comentários Finais Parece que prevalece na Região Metropolitana do Recife uma cultura da parte dos pais de alunos e das instituições de ensino que prima pela desatenção à questão das altas habilidades. De um modo geral, a superdotação e desapercebida e desatendida. Nas poucas circunstâncias em que a preocupação com o superdotado se faz presente, há uma predominância de abordagens limitadas ou mesmo inadequadas. Trata-se de um estado de coisas que parece refletir o descaso geral da sociedade com relação ao tema. |
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