OS Superdotados e O SABER

 
 
  Diferenças nas Formas de Aquisição do Saber

Uma das expectativas mais básicas que se pode ter em relação a indivíduos com QI elevado é a de que as suas preferências, atitudes e comportamentos com relação à busca por saber, particularmente no que concerne ao saber já existente, apresentem um padrão que se diferencie significativamente daquele dos indivíduos normais. Afinal, é razoável imaginar que uma capacidade superior para manipular informações e conhecimento venha a produzir estratégias mais sofisticadas para interação com as diversas fontes de conteúdos disponibilizados pela sociedade e cultura.

Para verificar a possibilidade acima, são analisados a seguir diversos aspectos da aquisição do saber em 3.700 alunos normais e superdotados de uma escola privada de classe média a alta da cidade do Recife.

Aspectos Quantitativos

Um dos primeiros aspectos a serem investigados na relação de um indivíduo com as diversas formas de lidar com a aquisição de conhecimento é a quantidade de tempo dedicada ao engajamento nas diversas atividades em questão. Desse modo, a tabela abaixo mostra uma comparação entre alunos normais e superdotados no que concerne ao número de horas que dedicam a cada meio de adquirir saber.

Comparação Entre Alunos Superdotados e Normais Quanto à Busca de Saber
Atividade Superdotados Normais Diferença Estatística
Tempo semanal dedicado ao estudo escolar. 7.4 hs 7.9 hs Não
Tempo semanal dedicado à leitura extracurricular. 3.8 hs 3.7 hs Não
Horas semanais passadas diante do computador. 6.5 hs 5.9 hs Não
Horas semanais passadas na Internet. 1.5 hs 2.0 hs Não

Como se pode ver, não se detecta qualquer discrepância relevante entre os normais e os superdotados no que se refere ao tempo que dedicam a cada uma das quatro atividades acima. Isso sugere que, possivelmente, a diferença resida em aspectos mais qualitativos.

A Principal Fonte de Saber

Para um cidadão de classe média ou alta de uma sociedade moderna, exitem várias fontes de informação e de conhecimento à sua disposição. Dentre as várias possibilidades, destacam-se a escola, a família, a mídia impressa (livros, revistas, jornais), a mídia eletrônica (rádio, televisão, Internet), o trabalho e outros. Cada uma dessas fontes de saber está imbuída de suas características próprias, o que está intimamente associado ao conteúdo e à lógica dos conteúdos que disponibilizam.

Tendo em vista o objetivo de caracterizar o padrão de busca por informação e conhecimento dos indivíduos com elevada capacidade intelectual, abaixo encontra-se uma comparação entre alunos normais e superdotados quanto a qual é a sua principal fonte de saber.

Estatisticamente falando, os superdotados mostram-se menos propensos do que os seus colegas normais a confiarem na escola para atender às suas necessidades de saber, com os primeiros recorrendo mais à mídia impressa do que os últimos.

Em termos do ranking das fontes, os alunos normais elegem a escola como a sua principal fonte de saber (36%), com a mídia eletrônica vindo em segundo lugar (27%). Enquanto isso, os superdotados dividem-se entre a escola e a mídia eletrônica (29% para ambas).

O Conteúdo Mais Lido

Independentemente do meio em que se apresente (livros, revistas, jornais, Internet), a leitura é uma das formas mais importantes de se adquirir informações e conhecimento em profundidade. Assim sendo, o diagrama abaixo compara os alunos normais e superdotados quanto ao conteúdo que eles mais lêem.

Quando se trata de leitura, os superdotados são mais propensos do que os normais a preferirem as notícias e os textos sobre ciência e tecnologia. Esses últimos, por sua vez, mostram-se mais interessados em esportes e conteúdos do currículo escolar do que os seus colegas mais talentosos. No mais, não há diferença estatística relevante.

Em termos do ranking das preferências, os superdotados são claramente mais interessados em notícias (26%) e ciência/tecnologia (20%), enqunto que os alunos normais preferem esportes (26%) e notícias (19%).

O Meio Preferido

O meio no qual um texto é inserido impõe uma certa lógica de organização e comunicação ao conteúdo em questão. As várias opções de disposição estão associadas, cada uma delas, a um conjunto específico de fatores que inclui temática, distribuição espacial, diagramação, desenhos, imagens e, no caso da mídia eletrônica, até sons, movimentos, hiperlinks e interatividade. O diagrama abaixo mostra uma comparação entre os alunos normais e superdotados quanto ao meio de leitura que preferem.

Estatisticamente falando, os superdotados se destacam dos seus colegas normais por serem mais propensos a preferirem as revistas e menos propensos a preferirem os quadrinhos. Contudo, não se detecta diferença significativa em termos do ranking dado aos diversos meios.

Conclusão

Quanto ao Tempo Dedicado às Diversas Atividades

A falta de uma diferença entre a quantidade de tempo dedicada pelos alunos normais e superdotados a atividades de estudo, leitura, uso do computador e uso da Internet sugere que o engajamento nessas ações e a distribuição do tempo entre elas é regulado por forças acima das variações individuais em QI. É razoável supor que trata-se de uma influência de natureza sócio-cultural que condiciona desde a disponibilidade de se realizar as atividades em questão até a sua maior ou menor valorização.

Quanto às Fontes do Saber

A menor tendência dos superdotados a confiarem na escola e a sua maior propensão a recorrerem à mídia impressa para saberem mais acerca do mundo e das coisas é um claro indicativo da sua maor inclinação para a curiosidade, para a independência de pensamento e para a autoregula.cão da aprendizagem. Trata-se de uma postura mais ativa e autodirigida em relação ao saber.

Quanto ao Conteúdo Predileto

A maior predileção do superdotado por textos sobre ciência e tecnologia está em perfeito acordo com a sua maior habilidade para o pensamento verbal e para o raciocínio lógico-matemático. Afinal, trata-se de conteúdos para os quais essas habilidades conferem grande facilidade e que também representam sua maior fonte de estimulação.

A menor propensão dos superdotados ao gosto por conteúdos esportivos pode ser explicada pelos mesmos argumentos acima, bastando apenas levar em conta a maior simplicidade desse tipo de texto, o qual geralmente fornece apenas descrições gráficas sumárias e conversas de bastidores em tom informal.

É interessante observar que os conteúdos literários, filosóficos e religiosos podem ser tão ou mais intelectualmente estimulantes do que os textos sobre ciência e tecnologia, mas parece haver algum fator acima das diferenças entre superdotados e normais que leva a uma procura relativamente baixa por esses outros tipos de literatura em ambos os grupos. De fato, nenhum desses temas chega a atingir a predileção de sequer 10% dos alunos de qualquer das categorias. É difícil identificar precisamente os mecanismos subjacentes ao baixo nível de atenção a esses assuntos, mas pode-se especular acerca do papel de uma sociedade e cultura que enfatizam cada vez mais a ciência e a tecnologia.

O interesse maior dos superdotados por notícias talvez reflita a tendência deles a apresentarem maior curiosidade, mior gosto pela diversidade e/ou maior sensibilidade aos acontecimentos. Outra possível explicação seria que uma das conseqüências da chamada Revolução Digital sobre a sociedade é a maior valorização e abundância de temas envolvendo ciência e tecnologia no noticiário, tornando aplicáveis também aqui alguns dos argumentos já colocados anteriormente.

Quanto ao Meio Predileto

A interpretação do significado da maior preferência por revistas e também da menor preferência por quadrinhos da parte dos superdotados envolve uma compreensão dos elementos de conteúdo, organização lógica e comunicação visual envolvidos nesses dois meios.

As revistas geralmente dedicam-se a assuntos epecíficos, sendo um formato bastante comum para a apresentação de novidades e reflexões sobre uma dada temática numa perspectiva semanal ou mensal. Geralmente, a diagramação é planejada para fornecer pistas visuais (seções, caixas de texto, diagramas) da organização lógica das matérias segundo uma estrutura de tópicos, favorecendo a varreduras do conteúdo e as buscas por assuntos específicos, ambas realizadas através do "folhear" .

Os quadrinhos geralmente envolvem estórias de ficção dispostas em gravuras seqüenciais onde são inseridos os diálogos e descrições da trama. Na maioria das vezes, trata-se de um texto linear, ou seja, que precisa ser lido numa ordem específica de começo, meio e fim, o que pode ser frustrante. Além disso, existe todo o tipo de literatura expressa sob a forma de quadinhos, variando do simplório ao sofisticado, infelizmente, porém, parece haver uma predominância das modalidades mais fracas, o que seria ainda outra fonte de desencorajamento.

Comentários Finais

À luz de todas as evidências obtidas, parece que se confirma a hipótese de que os alunos superdotados se diferenciam substancialmente dos normais com relação à forma pela qual adquirem saber, com os primeiros mostrando-se mais independentes e afeitos a conteúdos de ciência e tecnologia do que os últimos, além da maior preferência dos mais talentosos por uma mídia impressa visualmente mais sofisticada.