A SOCIABILIDADE DOS SUPERDOTADOS

 
 
  Testando Um Estereótipo

Quando se pensa na idéia de um conjunto minoritário de pessoas que difere substancialmente dos demais com relação a um ou mais parâmetros relevantes, imagina-se logo uma possível dificuldade de inserção social. No caso dos superdotados em intelecto, foi exatamente o que aconteceu, chegando-se a estabelecer o estereótipo do indivíduo excepcionalmente talentoso como alguém retraído, isolado, misógino, tímido, em suma, um incompetente social.

Apesar da lógica acima fazer perfeito sentido, ela não implica necessariamente num fenômeno que efetivamente ocorre. Para que essa possibilidade seja confirmada ou desconfirmada, é preciso um estudo objetivo da questão. Para este fim, foi realizada uma análise com os dados de 3.700 alunos de classe média a alta de uma escola privada recifense, sendo os superdotados em QI comparados com os seus colegas normais em termos de alguns indicadores de inserção social.

Superdotação e Habilidade Social

Uma das formas de se aferir a competência social de uma criança ou adolescente é indagando diretamente a respeito do fato, o que foi feito para o grupo de alunos em análise através de uma pergunta onde se pedia que eles avaliassem a sua própria capacidade de interagir com os outros, de fazer amigos e de assumir a liderança segundo uma escala variando de 1 (muito abaixo da média) a 5 (muito acima da média). Os resultados para alunos normais e superdotados são mostrados a seguir.

Comparando-se os alunos normais e superdotados do 1° e do 2° Grau quanto à forma como avaliam a sua própria sociabilidade, fica claro que não há diferença estatisticamente significativa entre ambos nesse sentido. Em outras palavras, não se detecta diferença relevante entre os alunos normais e os superdotados no que se refere à forma como avaliam a sua própria competência social.

Saídas Noturnas

Um outra forma de se avaliar a competência social é medindo-se o comportamento em si, particularmente o engajamento em atividades socialmente relevantes. Um bom exemplo de um parâmetro desse tipo seria o número de vezes por mês em que se sai à noite para fins de diversão (passeio, namoro, etc.). Uma comparação entre os alunos normais e superdotados nesse aspecto é mostrada no diagrama abaixo.

Os achados deixam claro que, assim como no caso da auto-avaliação da habilidade social, também no que se refere ao comportamento social de sair à noite para fins de diversão não se detecta diferença estatisticamente significativa entre os alunos superdotados e normais do 1° ou do 2° Grau.

O Estudo em Grupo

Ainda uma terceira forma de se avaliar a sociabilidade de estudantes é através da observação da preferência pelo estudo em grupo (o qual se contrapõe frontalmente a uma atitude de isolamento. O diagrama abaixo mostra uma comparação entre alunos normais e superdotados quanto à sua freqüência de estudo em grupo, segundo uma escala que varia de 1 (nunca estuda em grupo) até 5 (estuda em grupo mais do que oito vezes por mês).

A partir dos resultados, não se detecta diferença estatística entre alunos normais e superdotados de ambos os ciclos escolares quanto ao à propensão a se engajar em atividades de estudo em grupo. Isso é confirmado pelo fato de que, quando perguntados acerca do seu método preferido de estudo, uma proporção semelhante de estudantes normais e talentosos responde "estudo em grupo" (respectivamente, 9.4% vs. 9.7%).

Conclusão

Os achados disponíveis mostram claramente que superdotados não se mostram nem mais nem menos sociáveis do que os seus colegas normais mesmo quando se procura averiguar tal sociabilidade através de três diferentes perspectivas da habilidade e comportamento interpessoal. Conclui-se, portanto, que é falaciosa a noção de que crianças e adolescentes de QI elevado mostram-se pouco sociáveis, sendo essa hipótese frontalmente desconfirmada pela experiência.